Veronio Correia, 32, sustenta seu diploma em Estatística pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desde o final do ano passado.  Ele se mudou para Natal em 2005 para estudar, vindo da Guiné-Bissau após passar nas provas do “Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G)” – mas o seu caso não é isolado.

A presença de estudantes africanos na UFRN é tão representativa que despertou o interesse do realizador audiovisual Herison Pedro, 28, e da mestranda em Ciências Sociais Marlla Suéllen, 26, que juntos produziram o curta-metragem documental “Ubuntu”, vencedor do edital “Curta Afirmativo 2013” (Ancine/MinC), exclusivo para cineastas afro-brasileiros, lançado no final de 2013.

Com duração de 15 minutos, o filme já está finalizado e conta as histórias de outros quatro estudantes universitários africanos, além de Veronio. As filmagens foram realizadas, no entanto, com cerca de 10 estudantes entre junho de 2014 e maio deste ano.

Todos os personagens acabaram conduzindo os jovens realizadores audiovisuais para uma sigla até então desconhecida por eles: “PEC-G” ou “Programa de Estudantes-Convênio de Graduação”, existente há mais de 50 anos, que oferece oportunidades de formação superior a cidadãos de países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém acordos educacionais e culturais.

O programa é mantido pelos ministérios das Relações Exteriores” e da “Educação, em parceria com universidades públicas e particulares, selecionando estrangeiros entre 18 e 23 anos, com ensino médio com-pleto, para realizar estudos de graduação no Brasil.

“Na verdade a pessoa se candidata na embaixada e escolhe duas cidades de preferência, faz a prova e aguarda o surgimento da vaga no curso que desejou”, explica Veronio, lembrando-se do processo pelo qual passou em 2005.

Na época, sua segunda opção de destino era a cidade de Fortaleza. Veronio preferia se mudar para a capital potiguar por conta dos amigos que estavam aqui, vindos justamente através do programa de graduação. “A minha mãe também já tinha passado por aqui há alguns anos e eu acabei dando sorte porque a vaga surgiu em Natal mesmo”, explica.

Além de precisar se a-daptar aos costumes potiguares, Veronio também teve que se conformar sobre os novos rumos de seu destino, já que em Guiné-Bissau estava no terceiro ano de Direito e pensava em migrar para o curso aqui no país após ingressar em Estatística, mas a mudança não foi permitida pela UFRN.

“O programa permite essa mudança, mas a universi-dade não. Então precisei cursar Estatística até o final, o que foi muito difícil. Para você ter uma ideia, dos 50 estudantes que entraram junto comigo na turma, apenas seis se formaram”, comenta Veronio, que agora se prepara para a prova de mestrado na área contábil.

Embora o sonho de cursar Direito tenha ficado para trás, Veronio acabou encontrando na UFRN ainda um motivo bem maior para permanecer lá. “Casei e agora estou morando com minha esposa Silvânia Melo, que conheci enquanto ela cursava Serviço Social também na UFRN”, conta, um pouco envergonhando.

PRIMEIRA EXIBIÇÃO EM RECIFE

A primeira exibição de “Ubuntu: a África em Natal” está marcada para a semana que vem durante o Festival Internacional de Cinema Etnográfico do Recife (FIFER), a ser realizado entre os dias 28 de setembro e 2 de outubro.

Em Natal, a primeira sessão ocorrerá um pouco depois, no dia 20 de outubro, durante a Cientec 2015, junto com a exibição do curta cearense “Negro lá, Negro cá”, dirigido por Eduardo Cunha Souza, sobre a presença de estudantes africanos em Fortaleza.

“Durante as pesquisas  identificamos que São Paulo e Fortaleza possuem a maior concentração de estudantes africanos pelo PEC-G. Natal é um pouco menos expressiva”, define, informando ainda que a maioria dos estudantes éde dois países africanos: Guiné-Bissau e Cabo Verde.

“A maioria sai de seus países por conta dos conflitos mesmo, mas são casos específicos. Em Guiné-Bissau, por exemplo, existe um déficit nas universidades; então eles vêm ao Brasil à procura da melhoria na educação”, reforça. Atualmente, a UFRN recebe estudantes dos seguintes países africanos: Cabo Verde, Guiné-Bissau, Nigéria, Camarões, Togo, Congo, Benim e Senegal.

Até o final do ano, Herison pretende lançar o filme também em Guiné-Bissau e Cabo Verde para colher novos depoimentos de estudantes que esperam vir para o Brasil através do programa. O objetivo é unir material suficiente para transformar o filme em um longa-metragem.

“Todo esse documentário que a gente tá lançando agora se passa aqui em Natal, contando a visão que esses estudantes possuem aqui. Mas queria muito filmar esse processo de lá”, explica Herison, enquanto Marlla reforça um pouco dos conceitos explorados em “Ubuntu”.

“Olha, a gente fechou muito o ‘doc’ nessa relação com a universidade, tanto que entrevistamos alguns dos funcionários mais antigos e a própria reitora. Tem muito sobre a noção do estrangeiro que não imagina como seja o Nordeste, além do preconceito que sofrem por parte até dos próprios professores”, resume.

Fonte: Novo Jornal